Segunda parte da formação em Euritmia Cooperativa ou
Euritmia Social
20 de janeiro a 18 de fevereiro de 2011
Sekem - Egito.
29.01.2011
Eu, no Egito, angustiada.
Lá fora… ouvi tiros?! Carros com alarmes, motos corridas. Mas a verdade é que estou no paraíso, Sekem - Força do Sol, uma das três formas de chamar o sol em árabe antigo (aqui, agora, não soou muito bonito).
A poucos quilômetros de distância, os homens estão em revolução. Num país cinza e marrom, as frutas nas bancas abarrotadas trazem a cor. Os rostos robustos dos homens, me dizem o que Allah diz…
(mais três tiros…)
Desde alguns dias antes da partida, medo, muito medo. Pensava saber o porquê. Primeira semana, nomeada por mim de Moll-Woche (semana menor - relacionada a harmonia musical), passou…
(mais carros, mais/outras motos passaram)
Pensei que a tensão passaria ao chegar em Sekem (tensão do voo, de chegar num país estranho…). Foi só vivenciar o primeiro dia pra perceber que não. A questão social me incomodou demais. Me senti a perfeita burguesa hipócrita, querendo aprender sobre euritmia social e hospedada num "hotel", sendo servida todos os dias. Contradições suficientes de um Egito rico, europeu e burguês, dirigido por um tal reconhecido faraó Abouleisch.
Mas me resignei, me propus esta semana (que no caso começa no sábado) a observar, a querer ver o positivo. Afinal, num país como esse, o que este lugar proporciona, trabalha e revoluciona, é admirável.
Adentro a euritmia, e posso de novo sê-la. Tentando ser convicta de seu valor, trabalhamos, continuamos, e amanhã será mais um dia.
Deixo o mundo lá fora. Deixo o mundo aqui dentro. Durmo pra juntar o mundo fora-dentro.
30.01.2011
Hoje sinto medo. Desde ontem que já não me sinto segura neste lugar. Mas consigo cada vez mais me adentrar no trabalho e me fortificar.
Tenho vontade de falar e relatar ao mundo o que aqui se passa, mas hoje deixei isto pra lá. O pensar nas pessoas que talvez fiquem mais preocupadas, foi mais forte que minha revolta e tentativas de que, no mínimo o mundo saiba através de mim algo mais.
Não sei julgar, mas acho que a situação só piora. Toda a polícia, do país inteiro, foi dispensada, assim que mais de seis mil criminosos somente no Cairo, deixaram as prisões e agora andam nas ruas.
Com o toque de recolher, as pessoas deixam Sekem mais cedo, e chegam no outro dia atrasadas, se é que vêm. Mohammed, os professores, os cozinheiros, etc., passaram a noite acordados vigiando suas casas.
No Cairo as ruas foram fechadas. Carro nenhum passam. Somente os militares. Aqui, os militares são mais próximos do povo - são os jovens meninos tentando cumprir o seu dever. A polícia é corrupta e abusa de seus poderes que nem no Brasil. Por isso acredita-se que tê-la mandado-a embora evite mais violência, já que os militares não são tão mal vistos.
O tempo hoje foi muito estranho. O dia amanheceu com a introdução esplêndida da Lua junto a Vênus. Estava lindo demais. Aí fechou, em cinco minutos. Parecia que ia cair o maior pé d`água. Depois abriu de novo, um calor danado, um sol forte. Então fechou e o céu quis começar a chorar. Mas perece-me não ser ainda, tempo de lágrimas… a luta continuo o dia inteiro.
Hoje vi pela primeira vez as crianças chamadas Kamillenkinder (crianças da camomila). Trabalharam no sol colhendo a flor, horas a fio, enquanto nós, numa sala enorme, fazíamos euritmia. De alguma forma isso tudo me revolta.
31.01.2011
Hoje amanheci completamente calma, abri os olhos e demorei para lembrar em que situação estava ao dormir. Senti e logo pensei: tudo acabou. Meu medo, minha angústia passaram, e eu pude livremente respirar.
Logo pensei na Lua e na Vênus ao acordar. Lá estavam elas maravilhosas.
As notícias já não me atraem tanto. Ouvi dizer que a situação no Cairo estava hoje mais tranquila, mas que amanhã terão novas passeatas, nomeadas 6 de abril.
Os tiros continuam ao redor de Sekem. Somente para nosso "hotel", temos quatro homens - a segurança privada. O aeroporto foi invadido, pessoas feridas, lojas roubadas e destruídas.
E apesar de tudo isso não sinto medo.
Eu não sei se tenho uma conexão suficiente com o redor, para vivenciá-lo e sentir em mim alguma reverberação, ou se a tentativa de um dia - serenidade - se faz válida no outro, tornando-se realidade interna.
No avião, entre Cairo e Atenas - 18.02.2011
Depois do tempo tranquilo, de imensa paz interior vivida em Spring Valley, vivo agora, ainda, uma tremenda angústia. Eu me sinto culpada. Não sei dizer exatamente porquê e onde nasce esta culpa, mas o fato de poder ter e viver todos os privilégios que eu tenho, faz com que me sinta extremamente culpada ao ver que pé vive o mundo - um país inteiro como o Egito. Me sinto como qualquer ser humano com o mínimo de senso de humanidade - impotente, inativa, burguesa hipócrita!
Depois de vivenciar tanto verde, as árvores se transformando nas cores do fogo, nos mais diferentes tons de amarelo, vermelho e laranja, estar num país onde 95% é deserto, me choca, me desespera. A secura da terra, o país todo cor de marrom, esvazia a minha alma. A miséria envolvida em lenços coloridos, tenta se disfarçar nas bancas abarrotadas de laranja - as cores ressaltam aos olhos e tentam colorir a vida. A verdade é que a miséria não se disfarça e as crianças nas ruas mostram como ser criança não é mais possível.
As crianças que vão à escola waldorf em Sekem vivem em plena contradição: em Sekem não se pode jogar lixo no chão - em casa, elas brincam (se é que brincam) em meio ao lixo. Em Sekem elas ganham comida biodinâmica - em casa ela comem a carne (quando comem carne) comprada no açougueiro que a pendura do lado do lixo. E tantas outras coisas…
E a revolução… meu Deus, que fazíamos nós num país em revolução? Euritmia, com plena convicção. Admirei Annemarie - que perseverança, que confiança. Eu me perguntando, não sabendo, querendo crer… deparada com a realidade "subjetiva" da arte. A tal substância etérica, que alguns conseguem realmente observar, tentamos torná-la realidade. Fizemos nosso trabalho, continuamos nosso dever, com maior força de presença - presença de espírito! Nunca poderemos saber o quanto, qual o significado do que foi praticado a cada dia. A tentativa, em puro ato de doação, sem ter resultados, sem obter qualquer comprovação.
Ao deixar o Cairo levantando voo, quase chorei. Me veio a dor vivida dos dias em que não amei. Às vezes não gosto de olhar pra trás, assim como não levo despedidas a sério - é pra não doer mais. Assim foi que só pensava no reencontro com meu amor. Sentada então, no banco do avião, decidi olhar o Egito pela última vez e me despedir - e me angustiar e me desesperar. Meu peito tem um nó. Minhas mãos tremem. Meus olhos com certeza irradiam melancolia.
Eu não sei se um dia quero voltar a este lugar. Se sim, justamente como desafio para tentar vivenciar outras coisas. Quem sabe através de um trabalho.
Agora é deixar estar, torcer para que a revolução traga bons frutos - e que Sekem continuo mudando a vida do Egito!
É incrível poder vivenciar a capacidade humana de transformar a terra, de levar cultura, de criar raízes e fazer viver, crescer, florescer, dar frutos e se multiplicar. Um homem, um ideal, e a vontade, o querer em fazer e acontecer.
Agradecida senhor Abouleisch, por poder ver o potencial humano sendo praticado - criando o bem, sendo bom!
clara do cééu! que bonito que vce escreve. e que vivencias! quase chorei aqui no meio do trampo. hueheuhue
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